A tele-saúde, como ferramenta para optimizar a gestão da doença crónica, tem conhecido, ao longo dos últimos anos experiências mais positivas e outras menos positivas. Nas próximas linhas vou tentar enumerar os factores que, na minha opinião, podem contribuir para o sucesso de de um programa integrado de tele-saúde:
1. Suporte e apoio da administração hospitalar
Sem assegurar o devido financiamento dos programas de tele-saúde, torna-se inviável a sustentabilidade de qualquer iniciativa, por muito nobre que seja. Para que se consiga dar o salto daquilo que são iniciativas com o objectivo de testar conceitos e pilotos para testar tecnologia, mas conseguir atingir outro nível, nomeadamente com criação de um modelo integrado de tele-saúde é necessário investimento.
Felizmente, Portugal constitui-se, atualmente, como um dos poucos países europeus onde a administração central tem linhas de contratualização específicas para a tele-saúde, na sua vertente da telemonitorização da doença pulmonar obstrutiva crónica e da insuficiência cardíaca. Este factor é deveras importante, como é óbvio.
2. Programa de acompanhamento em ambulatório
Os doentes candidatos a uma programa de tele-saúde já deverão ser seguidos em consultas hospitalares diferenciadas, em contexto de programas de acompanhamento estruturado. A tele-saúde não resolve nem vai colmatar problemas estruturais pré-existentes.
A tele-saúde é apenas uma ferramenta para gerir melhor estes doentes crónicos, no conforto das suas casas e que pode melhorar um programa de acompanhamento em ambulatório já implementado. Esta estruturação é necessária porque os doentes poderão ter necessidade de recorrer, facilmente, às consultas num episódio de pré-agudização.
3. Segmentação de doentes
Este é, provavelmente, um dos factores mais importantes. Um coisa é certa: a tele-saúde não é para todos os doentes.
Para mim constitui uma pergunta de investigação fulcral, na qual não se centra apenas nas características da própria patologia e dos seus diferentes fenótipos, mas em coisas simples como: a capacidade para o doente interagir com os dispositivos; disponibilidade para efectuar medições com a frequência pretendida ou a disponibilidade para se deslocar, quando a pedido, ao hospital para uma avaliação clínica. São apenas alguns exemplos entre muitos que influenciam a motivação do doente para estar num programa de tele-saúde.
4. Liderança visível
Quer seja um early adopter ou um entusiasta de novas tecnologias, é necessário que o responsável do programa tenha a capacidade de liderar uma equipa de profissionais de saúde, tendo a capacidade de demonstrar a sua visão da tele-saúde e de os motivar diariamente para o sucesso do programa. Quando temos um projecto que pode motivar dúvidas ou incertezas (até porque é algo novo) é necessário alguém com essa característica para orientar e determinar o melhor caminho. E voltando ao primeiro factor, é necessário que lhe seja reconhecida essa liderança pela administração hospitalar, para que tenha autonomia para construir um programa integrado e duradouro.
5. Trabalho de equipa
A tele-saúde pode gerar mais actividade assistencial em ambulatório e isso provoca um maior intensidade laboral nos médicos. O factor “trabalho de equipa” permite diminuir esta intensidade.
Podem ser equipas pequenas de dois profissionais de saúde ou doze profissionais de saúde, mas devem existir e assegurar que, mesmo com a normal actividade assistencial, conseguem facilmente dar resposta assistencial aos doentes em programa de tele-saúde, disponibilizando-se para recebê-los sempre que indicado, em tempo útil.
Em nenhum dos factores enumerados fiz referência à tecnologia dado que a oferta hoje é imensa e pode não ser um factor importante, mas com uma relevância relativa.