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“Small data” na telemedicina

Um dos livros que li nos últimos anos e que achei muito interessante foi o “Small Data” do Branding Expert Martin Lindstorm. Uma das mensagens deste livro é de que todos os seres humanos têm necessidades por satisfazer e que através da identificação dessas necessidades podemos, posteriormente, adequar a oferta aos desejos dos consumidores, recorrendo ao “small data”. 

Small data

Small data não é mais do que alguns detalhes do nosso dia-a-dia, pequenos (mas muito reveladores), que podem ser identificados e pesquisados dentro das nossas casas ou nas redondezas. O autor recorreu a variadas técnicas de marketing etnográfico para conhecer melhor os consumidores, procurando desequilíbrios (por excesso ou por defeito) nos desejos dos consumidores e oferecendo soluções para colmatar essas necessidades, muitas vezes inconscientes.  

O que é que isto tem a haver com telemedicina? Tudo. 

No passado mês de Junho foi publicado no JAMA Network Open um estudo transversal, com 1.1 milhões de doentes que avaliou as características (leia-se detalhes) respeitantes aos doentes que optam pela teleconsulta em vez da consulta presencial, mantendo o mesmo médico de medicina geral e familiar.

Os resultados foram surpreendentes sobretudo nos seguintes itens:  

  • Idade: Doentes com 65 anos ou mais de idade tinham menor probabilidade (em comparação com os doentes com idades entre os 18 a 44 anos) de escolher a telemedicina (RRR 0,24; IC 95%, 0,22-0,26 para a teleconsulta com vídeo; RRR 0,55; IC 95%, 0,54-0,57 para a teleconsulta com telefone apenas) 
  • Acesso à internet: Doentes que moravam numa zona com altas taxas de penetração de internet residencial tinham uma maior probabilidade de escolher uma visita em vídeo do que os doentes que habitavam em zonas com uma taxa de penetração à internet mais baixa (RRR 1,10; IC 95%: 1,06-1,14) 
  • Estacionamento: Doentes em que a clínica tinha um parque de estacionamento pago apresentaram uma maior probabilidade de escolher uma visita através de telemedicina do que doentes em que as clínicas tinham estacionamento gratuito (RRR 1,70; IC 95%, 1,41-2,05 para vídeo-visita e RRR 1,73, IC 95%, 1,61-1,86 para visita telefónica) 

São “detalhes” importantíssimos para adequar a oferta de serviços de telemedicina aos doentes. 

idade mais elevada continua a ser um factor que pode limitar o acesso à telemedicina pela componente tecnológica: acesso à internet, utilização de smartphones, etc.  

Photo by Fabrizio Verrecchia from StockSnap

Por outro lado o acesso à internet também deve ser tido em conta como facilitador de adopção da telemedicina. Em Portugal, de acordo com o relatório ”O Sector das Comunicações 2018”, da ANACOM revela que, em 2018 existiam 3,49 milhões de clientes com serviço de acesso à Internet em local fixo, tendo aumentado 3,2% em relação a 2017. São números positivos, tendo em conta que acessos móveis com utilização efetiva (excluindo M2M e PC/pen/tablet/router) são mais de 12 milhões, de acordo com o mesmo relatório. Ou seja, hoje temos dois contextos em que existe a possibilidade de acesso à internet: em casa, através da internet fixa e no telemóvel. 

Photo by WDnet Studio from StockSnap

O caso do estacionamento gratuito é mais peculiar, mas faz todo o sentido: a barreira geográfica (deslocação à clinica) atua como moderador para a utilização da telemedicina em alternativa à consulta presencial.  Além deste aspecto, a telemedicina tem impacto na sustentabilidade ambiental ao reduzir a utilização do automóvel nas deslocações para as visitas presenciais, de acordo com um estudo publicado em 2019 no International Journal of Environmental Research and Public Health (peer reviewed).   

Photo by Jay Mantri from StockSnap

Para além da tecnologia na adopção da telemedicina

Normalmente quando avaliamos o sucesso na implementação de programas ou serviços de telemedicina tendemos a nos focar na tecnologia (do ponto de vista do doente). O que também é importante, como sugere este estudo, mas existem mais “detalhes” que podem influenciar de forma positiva a adopção da telemedicina por parte dos doentes, como por exemplo a facilidade para estacionar o seu carro. 

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