Estamos a viver mais.
Vivemos cada vez mais, é um facto: Em Portugal, a esperança média de vida à nascença, para ambos os sexos, aumentou de 71,1 (1980) para 80,6 (2015).

Imagem: OurWorldinData.org
O desafio nos últimos anos tem se centrado na melhoria da qualidade de vida nesta população que está a viver mais e que, vivem, frequentemente com uma, duas ou mais doenças crónicas.
Importa compreender e implementar soluções para melhor acompanhar estes doentes, sobretudo através da inclusão de modelos de prestação de cuidados que envolvem a saúde digital. Para isso temos que olhar além da tecnologia de forma a potenciar o aumento da sobrevida.

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Como viver mais tempo?
À parte da melhoria dos cuidados de saúde prestados, que muito influenciaram o aumento da esperança média de vida, alguns estudos sugerem três importantes elementos que podem contribuir para uma maior longevidade:
1 – Exercício
A prática de exercício físico está relacionada com uma maior sobrevida e menor risco de mortalidade. Um estudo publicado em 2015 no JAMA que analisou cerca de 661000 indivíduos, seguidos ao longo de 14,2 anos (média), demonstrou que a atividade física em doses abaixo do recomendado (<150 min./semana), reduzia 20% o risco de mortalidade quando comparado com o grupo de controlo, que não praticava nenhuma atividade física.
Aqui é claro que alguma atividade física é sempre melhor do que nenhuma.

Image: Risco de mortalidade vs intensidade do exercício (Arem, et al, 2015)
2 – Ter um propósito
De acordo com a definição (priberam):
(latim propositum)
1. Tomada de decisão. = DELIBERAÇÃO, RESOLUÇÃO
2. Aquilo que se pretende alcançar ou realizar. = INTENTO,
PROJECTO, TENÇÃO
3. Finalidade, fim, mira.
4. Tino, juízo, seriedade, prudência.
Podemos então afirmar que um propósito é um sentido para a vida, um objectivo. De certeza que muitos de nós fez resoluções de ano novo: Objectivos a atingir durante este ano, que geram uma motivação intrínseca com um sentido de orientação para algo.
Um estudo publicado no Lancet (2015), que acompanhou 9.000 indivíduos com mais de 65 anos durante 18,5 anos, demonstrou que os que tinham uma maior sensação de bem-estar e com isso, mais satisfeitos com a vida, viviam mais tempo. Esse bem-estar advém do facto de se manterem ocupados, por exemplo, após a reforma ou de olharem para o futuro de forma positiva.
3 – Socialização
O conceito de sociedade implica a existência de relações humanas, consistindo em estruturas de suporte informais que, muitas vezes, nos definem como membro da sociedade. A importância dessas relações tem sido alvo de investigação e os estudos sugerem existir uma ligação positiva entre a socialização e a sobrevida. Um estudo publicado em 2016 no PNAS, sugere que, a manutenção de relações sociais na população mais idosa pode ter um papel protector para a saúde, nesta fase da vida adulta. As doenças crónicas são mais prevalentes nesta fase, como parte do natural processo de envelhecimento.
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No entanto, idosos socialmente mais activos parecem ter um menor risco para estas doenças, sugerindo até, uma relação de causa-efeito das relações sociais na redução da hipertensão e da obesidade nesta população. Foi também estimado que, o efeito deletério do isolamento social, pode ser mais importante do que a diabetes, um factor de risco cardiovascular muito relevante.
Humanização dos cuidados.
Estes 3 elementos surgem, de investigação recente, como factores que influenciam positivamente a sobrevida, sobretudo numa fase avançada da vida adulta. Recentemente a inovação tecnológica tem sido imensa e muitas vezes disruptiva no sector da saúde. Mais recentemente, a saúde digital tem tido, cada vez mais propostas inovadoras que alteram alguns paradigmas dos cuidados de saúde.
Uma coisa é certa, a tecnologia não vai, nem deverá substituir a relação humana, sobretudo nos mais idosos, dado o potencial que a manutenção e promoção destas relações apresenta. A tecnologia é um importante facilitador destas relações, sejam com familiares, amigos, cuidadores ou até os próprios prestadores de cuidados, como são os profissionais de saúde. Faz parte dos modelos de prestação de cuidados, tornando-os mais eficazes e eficientes. Nunca um substituto.

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Na era da digitalização dos cuidados de saúde, é importante não esquecer o valor das conexões “não-digitais”: A interacção humana. Acredito que, uma boa implementação de estratégias de digitalização na saúde, assenta numa concomitante humanização dos cuidados, sobretudo na abordagem às doenças crónicas.
Fontes:
- Arem, H., Moore, S. C., Patel, A., Hartge, P., de Gonzalez, A. B., Visvanathan, K., … Matthews, C. E. (2015). Leisure Time Physical Activity and Mortality: A Detailed Pooled Analysis of the Dose-Response Relationship. JAMA Internal Medicine, 175(6), 959–967. http://doi.org/10.1001/jamainternmed.2015.0533
- Steptoe, A., Deaton, A., & Stone, A. A. (2015). Psychological wellbeing, health and ageing. Lancet, 385(9968), 640–648. http://doi.org/10.1016/S0140-6736(13)61489-0
- Yang, Y. C., Boen, C., Gerken, K., Li, T., Schorpp, K., & Harris, K. M. (2016). Social relationships and physiological determinants of longevity across the human life span. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 113(3), 578–583. http://doi.org/10.1073/pnas.1511085112